Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Lógica da Batata Frita

A Consciência criou-me e então pus-me a pensar. No início doeu, mas lá lhe apanhei o jeito.

Lógica da Batata Frita

A Consciência criou-me e então pus-me a pensar. No início doeu, mas lá lhe apanhei o jeito.

Cando petan na porta pola noite

Recensão

Olavo Rodrigues, 16.09.20

Francisco Xabier Puente DoCampo, mais conhecido como Xabier P. DoCampo, nasceu a 5 de abril de 1946, em Rábade (Galiza), Terra Cha, e faleceu n’A Corunha em 2018. Foi professor do Ensino Primário, escritor, guionista, ator de teatro, contador de histórias e dedicou a sua vida à língua e à cultura galegas. Além disso, também era experiente em bibliotecas escolares e um promotor da leitura.

Escreveu principalmente literatura infantojuvenil e entre os seus livros destacam-se: O misterio das badaladas (1986), O armario novo de Rubén (1989), O país durminte (1993), Adelaida, Henrique e demais familia (1996), O pazo baleiro (vazio) (1997) e Un conto de tres noites (2001). A obra aqui recenseada recebeu o Prémio Rañolas, que foi um galardão de literatura galega infantojuvenil entre 1994 e 1998. Além disso, rececionou também o Prémio Nacional de Literatura Infantil de Espanha e fez parte da Lista de Honra do IBBY: uma lista de livros infantis internacional e bienal que visa destacar escritores, ilustradores e tradutores para promover a compreensão cultural através da literatura infantil. 

Cando petan (batem) na porta pola noite é uma compilação de histórias de terror e conta também com uma secção sobre o autor em que este descreve a sua infância e como surgiu a paixão por escrever, bem como o seu processo criativo.

O meu preferido dos quatro contos é o último: O cumpremortes (morteversário), que retrata um homem que se vê obrigado a mudar, por completo, a sua vida devido a umas estranhas cartas que recebe de alguém desconhecido. O escrevente felicita-o pela aproximação do dia da sua morte e a cada ano, envia-lhe, no dia do mês em que morrerá, uma carta como se fosse uma felicitação de aniversário.

Considero esta história a mais fascinante, porque o medo é sobretudo psicológico, o que, na minha opinião, é mais interessante que qualquer susto físico e frontal. O terror psicológico é mais misterioso e imprevisível, aumentando o efeito de suspense. Agarra-me com mais facilidade, pois gosto de analisar como uma personagem reage à situação consoante a sua personalidade. No caso do protagonista deste conto, que é um homem pragmático e bastante ligado às responsabilidades, é curioso observar que mude de vida tão repentinamente sem se preocupar com justificações. O enorme medo que tem, sente-se, mas em vez de procurar uma solução que concilie a resolução do problema com a sua zona de conforto, despede-se do emprego e muda de cidade na expetativa de que o escrevente da carta deixe de saber a sua morada. A transformação que sofre é cada vez mais surpreendente ao longo do enredo, o que conduz a um cativante final.

Assinalo O Fornadas como a história mais chocante e violenta, a qual relata a vingança de uma idosa fantasmagórica maléfica que se dedica a infernizar a vida do seu assassino. Diria inclusive que se aproxima do terror para adultos, tendo em conta as descrições algo detalhadas dos momentos mais impactantes. Considero-o também uma narrativa de grande mestria pela sua imprevisibilidade e pelo bem-sucedido efeito perturbador de uma boa história de terror.

No entanto, a distinção de reviravolta mais fascinante atribuo ao primeiro conto, O Espello do Viaxeiro, no qual um homem consumido pelo ódio comete um homicídio e, quando se apercebe, o feitiço já se virou contra o feiticeiro. A vida do assassino também é roubada, mas não da forma mais esperada.  

Em suma, esta obra marcou-me. Não estou habituado ao terror, pois não gosto do género, mas nutro um fascínio pelas produções mais leves como é o caso de Arrepios, a série infantojuvenil mundialmente conhecida de R. L. Stine. De facto, o livro de DoCampo diverge do estilo de Stine na medida em que não há tanta fantasia, mas não deixa de mostrar um cuidado com o doseamento do choque e com a construção de uma trama cativante, salientando as reviravoltas.

 

Fontes

1) Autor desconhecido, 2020. Xabier P. DoCampo. [online] Wikipédia. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/wiki/Xabier_P._DoCampo> [Consultado em 16 de setembro de 2020].

2) DoCampo, Xabier P. (2002). Cando petan na porta pola noite. La Voz de Galicia, pág. 91

3) Autor desconhecido, 2018. Premio Rañolas. [online] Wikipédia. Disponível em: <https://gl.wikipedia.org/wiki/Premio_Ra%C3%B1olas> [Consultado em 16 de setembro de 2020].

4) Autor desconhecido, 2020. IBBY Honour List. [online] IBBY. Disponível em: <https://www.ibby.org/awards-activities/awards/ibby-honour-list> [Consultado em16 de setembro de 2020].

Ilusões da Internet Panótica (7)

Conclusão

Olavo Rodrigues, 23.07.20

Passámos pelo impacto da linguagem, analisando as circunstâncias que se podem julgar necessárias para a sua eficiência e associámo-lo à liberdade de expressão. Em seguida, espreitámos os casos de Martin Luther King e de Felipe Neto em prol de uma alteração social e adentrámo-nos depois em comparações entre algumas fases da História, vendo a sua relação com a nossa época. Vimos também o conceito do Panótico e encontrámos parecenças entre a prisão de Bentham e a internet, sendo que esta pode em breve começar a condicionar a nossa qualidade de vida. Por fim, seguiu-se o episódio de The Orville com a intenção de expor paralelismos entre a sociedade daquele planeta e a da internet, pois sugiro que esta se tornou em si uma nova sociedade.

A despeito de o grosso deste ensaio girar em torno dos traços negativos da World Wide Web, gostava também de sublinhar o que tem de positivo. Acho que possibilitou a muitas pessoas uma oportunidade de mostrarem o que valem, o seu talento. Com isso também se abriu bastante espaço para o vazio, sim, mas não creio incorrer num erro ao dizer que inúmeros escritores, músicos, desenhadores, pintores e outros criadores de conteúdo encontraram um novo sentimento de pertença. A mesma ausência de regras que permite a qualquer um publicar ditos descabidos e mentiras, também nivela o acesso ao holofote aos que gostam genuinamente de criar. Basta abrir um blogue ou uma conta no YouTube ou no DeviantArt, por exemplo. O que não faltam são plataformas que acolhem criadores de conteúdo e há quem ganhe maquias bem generosas. Se a internet é um novo mundo, além de tudo o resto que mudou, revolucionou também o entretenimento. Os grandes youtubers atingem milhões de visualizações por vídeo. São números televisivos.

O que fazer quanto a todos os problemas que aqui abarcámos? O filósofo Paul Virilio formulou que quando se inventou o barco, inventou-se o naufrágio (em Queirós, 2018). Interpreto isto como o facto de que não há nenhuma tecnologia completamente benigna. A internet providencia entretenimento, comunicação e informação de todos os géneros imagináveis. Porém, tal diversidade acarreta o preço das produções vazias, da difamação e da desinformação. Publicar algo que nos agrade, seja feito por nós ou não, vulnerabiliza-nos à publicidade perversa, ao ódio e à desconfiança das plataformas onde depositamos o nosso teor. Quanto mais pessoal for o que partilhamos, mais vulneráveis nos tornamos aos ataques e à exploração, pois é impossível obter respeito por privacidade quando se recusam a ver-nos como indivíduos.

É agradável quando a internet nos mostra artigos que nos afagam o lado materialista, mas em contrapartida sabemos da mão de obra quase escrava que está por detrás daquilo, do consumismo desenfreado e insalubre que os cliques fáceis geram, dos defeitos dos algoritmos, de, uma vez mais, fornecermos informação sobre nós que só nos torna números que originam números.

Não penso que haja uma resposta certa à questão: “até que ponto é que te dispões a vender-te?” O estudo da Kaspersky revelou uns sólidos 67% dos inquiridos que gostavam de aliar os seus perfis digitais a fins comerciais. Parece-me legítimo, porque é uma escolha pessoal e não uma imposição a terceiros, mas então e os que não o querem? “A minha privacidade não devia estar à venda (Philosophy Tube, 2020)”. Se cada tipo diferente de barco conduz a um tipo diferente de naufrágio, a maneira que penso ser mais viável de fugir ao Panótico é cortar qualquer relação com ele: apagar as contas das redes sociais, dos e-mails, dos videojogos, das lojas, de tudo: evaporar da rede. Não se trata só de apagar contas, mas de não usar a internet de todo, pois se, por exemplo, se fizer pesquisa no Google para um trabalho está-se outra vez a alimentar a máquina. No entanto, a internet poupa-nos esforço e dá-nos conforto. Também nós estamos dependentes dela. Porquê apenas vasculhar livros na biblioteca se o Google apresenta milhares de escolhas em frações de segundos? Ser livre ou, pelo menos, mais livre tem um preço.

Deixo, então, estas questões em aberto a qualquer pessoa que queira explorá-las noutros trabalhos: haverá outras saídas? Quão funcional pode ser uma vida atual que esteja completamente isolada da rede?

PS: Sei que é irónico publicar na internet algo que alerta para as desonestidades do meio quando escrevi que as palavras anónimas não exercem influência nenhuma, mas eu encaro esta comunidade de blogues como uma espécie de rede social. Por este motivo e por termos um grupo tão interativo e acolhedor, vejo isto como uma oportunidade de discutir ideias e aprender perspetivas novas em vez de uma tentativa de mudar o mundo. 

 

Fontes

1) Kobek, J., 2018. Odeio a Internet. 1ª ed. Lisboa: Quetzal.

2) Wikipedia. 2019. História da Internet. [ONLINE] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/História_da_Internet. [Consultado em 19 de junho de 2020].

3) Araújo Pereira, R., 2017. Isto não é maneira de abominar jornalistas. In: R. Araújo Pereira, ed., Reaccionário com Dois Cês, 1ª ed. Lisboa: Tinta da China, pp.39; 40.

4) Dinheiro Vivo. 2018. Facebook: tudo sobre a polémica que afeta 50 milhões de utilizadores. [ONLINE] Disponível em: https://www.dinheirovivo.pt/empresas/facebook-a-polemica-que-afetou-50-milhoes-explicada/. [Consultado em 19 de junho de 2020].

5) Wikipedia. 2020. Walking with Beasts. [ONLINE] Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Walking_with_Beasts. [Consultado em 26 de junho de 2020].

6) YouTube. (2019). CENSURA NA BIENAL!. [Vídeo online]. 6 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=meqsHqP4Qw4. [Consultado: 30 de junho de 2020].

7) Isto É. 2020. Entrevista FELIPE NETO, YOUTUBER E ESCRITOR. [ONLINE] Disponível em: https://istoe.com.br/foi-uma-resposta-a-censura-e-a-opressao/. [Consultado em 29 de junho de 2020].

8) The Washington Post. 2020. The black-white economic divide is as wide as it was in 1968. [ONLINE] Disponível em: https://www.washingtonpost.com/business/2020/06/04/economic-divide-black-households/. [Consultado em 30 de junho de 2020].

9) Polígrafo. 2020. Felipe Neto, um dos maiores influencers brasileiros, apelou à pedofilia no Twitter?. [ONLINE] Disponível em: https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/felipe-neto-um-dos-maiores-youtubers-brasileiros-apelou-a-pedofilia-no-twitter. [Consultado em 29 de junho de 2020].

10) YouTube. (2017). Foucault 2: Government Surveillance & Prison | Philosophy Tube. [Vídeo online]. 26 de maio de 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AHRPzp09Kqc. [Consultado: 26 de junho de 2020].

11) YouTube. (2020). Data | Philosophy Tube. [Vídeo online]. Janeiro de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fCUTX1jurJ4. [Consultado em: 26 de junho de 2020].

12) Expresso. 2020. Ver recusado um empréstimo por causa daquilo que partilha nas redes sociais? É cada vez mais possível. [ONLINE] Disponível em: https://expresso.pt/sociedade/2020-06-24-Ver-recusado-um-emprestimo-por-causa-daquilo-que-partilha-nas-redes-sociais--E-cada-vez-mais-possivel?fbclid=IwAR3-jQK1-38I4LEpxWV9fwWoRS5BQ9XleesTdJGwbbYwkjrd_-xrPJGQVP0. [Consultado em 26 de junho de 2020].

13) Matrix. 1999. [filme] Realizado por L. Wachowski and L. Wachowski. Hollywood: Village Roadshow Pictures; Silver Pictures.

14) The Orville, 2017. [programa de TV] Fox Comedy: Fox.

15) Público. 2018. Morreu o filósofo Paul Virilio. [ONLINE] Disponível em: https://www.publico.pt/2018/09/18/culturaipsilon/noticia/morreu-o-filosofo-paul-virilio-1844408. [Consultado em 30 de junho de 2020].

 

Ilusões da Internet Panótica (6)

Internet: um Panótico Digital (3)

Olavo Rodrigues, 23.07.20

A internet não só mudou a sociedade como é a nova sociedade. É nela que acontece de tudo, que se sabe de tudo: mexericos, novidades tecnológicas, política, entretenimento, trabalho; é onde as pessoas promovem projetos como páginas do Facebook, canais no YouTube ou espalham o seu mais recente livro ou álbum. É onde publicam que andam a viajar, que entraram na faculdade ou até que estão a comer. É de uma hiperatividade sem precedentes. Se Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, a internet é o mundo viciado em bebidas energéticas.

Creio que um dos maiores infortúnios da atualidade é ser antagonizado pela rede. Por exemplo, um vídeo com o qual as pessoas engracem tem a capacidade de tornar qualquer um numa estrela nem que seja a curto-prazo, mas se houver o azar de enfurecer a World Wide Web, o dilúvio de ódio, além de deixar marcas profundas, vai durar bastante tempo. O despejo de comentários, textos, imagens e vídeos de censura vai perseguir o infeliz alvo. Dinheiro e atenção. São as palavras-chave, sugiro: pega-se num erro já chicoteado vezes sem conta e dá-se-lhe um novo holofote que só vai despertar mais ódio. O pior mal de ser conhecido na internet pela negativa é que todos os movimentos são instantâneos, por isso, num estalar de dedos chega-se a milhares e milhares de pessoas. Mesmo que se apague a fonte da produção polémica, esta já se perdeu num sem-fim de sites e no lugar mais difícil de alcançar: a cabeça dos recetores. Lá ficará durante anos a fio.

 A série de ficção científica, The Orville (2017) ilustra bastante bem esta dinâmica no episódio Majority Rule (1ª temp.). Nesta série, os terráqueos já atingiram a era espacial e, no referido episódio, visitam um planeta parecido com a Terra do século XXI para o estudar. A civilização que o habita adotou uma democracia absoluta: não há nenhuma autoridade especializada em legislação, justiça, medicina, etc. Todas as decisões são tomadas pela população no geral através de uma plataforma que se chama Master Feed, a qual recolhe a reputação de toda a gente, sendo a mesma definida por votos positivos ou negativos. Estes, por sua vez, acumulam-se numa placa que todos trazem no peito e que tem uma seta verde que aponta para cima e outra vermelha direcionada para baixo.

Um dos investigadores, LaMarr, conspurca a estátua de uma egrégia figura histórica do planeta de maneira a fazer uma piada com a vida amorosa de uma amiga. Os votos também se dão no Master Feed, portanto, pouco depois de uma multidão filmar, com os telemóveis, o homem a roçar-se indecentemente na estátua, o seu número de pontos negativos ascende aos milhões. LaMarr tem, então, de pedir desculpa e provar que está arrependido do que fez em programas de televisão, mas sem sucesso. A sua reputação só piora até que a nave-mãe entra no Master Feed e adultera imagens e vídeos que fazem as pessoas empatizarem com o tripulante. Se não tivesse sido salvo a tempo, o infrator teria sido condenado a “ser corrigido” ou, por outras palavras, sofreria uma eletrocussão violentíssima que o deixaria num estado mental quase vegetativo.

Aplicar um ato sexualizado a um ídolo histórico aparenta ser um bom motivo de indignação. Todavia, o ódio que LaMarr recebe, parece-me, a partir de certa altura, excessivo. Numa parte, uma multidão tenta cercá-lo para que toda gente tenha a oportunidade de lhe atribuir um voto negativo diretamente no peito. Como se toda a gente quisesse dizer-lhe: “és lixo e nunca mais merecerás receber um pingo de compaixão. O teu lugar é no chão”. É um massacre, porque a população só se satisfaz se o assunto se arrastar imenso. Parece-me legítima uma chamada de atenção inicial – não colérica - mas não o ódio que perdura, pois esse parece-me sádico. Além disso, a aversão nem sempre se justifica, porque pode ser precipitada. Antes de LaMarr e dos colegas, dois outros tripulantes de Orville foram também enviados ao planeta. Aliás, a equipa do episódio da estátua desceu para procurar os outros investigadores e deparou-se com um deles no estado vegetativo, visto que fora submetido à eletrocussão por não ter cedido o assento a uma grávida num transporte público. No entanto, quando os integrantes da nave-mãe verificaram o Master Feed, repararam que o seu colega agira assim, não por egoísmo, mas porque simplesmente não vira a mulher. Também estes homens tiveram de ir a programas de televisão, pedir desculpa e ser o centro das atenções durante um tempo considerável.

Será que no nosso mundo, a internet também não é às vezes precipitada além de massacrante? Na minha opinião, faz parte desta nova ordem social ser ou muito amado ou muito odiado e tenho a sensação de que há sempre uma grande quantidade dos dois conceitos em conflito. Quem está no meio-termo, passa despercebido e junta-se à massa anónima sem força nas palavras.

Ilusões da Internet Panótica (5)

Internet: um Panótico Digital (2)

Olavo Rodrigues, 23.07.20

Quando trabalhava na NSA (National Security Agency), Edward Snowden, um analista de sistemas informáticos, obteve acesso a informações de diversos programas de vigilância da agência. Descobriu que esta se servia de redes informáticas complexas para vigiar todas as comunicações mundiais pela internet. A NSA conseguia ver tudo o que toda a gente fazia nos computadores e nos telemóveis. Embora seja horrorífico à primeira vista, creio que é de esperar que se faça. A internet foi projetada pelo Departamento de Defesa do Governo dos Estados Unidos como uma arma contra a União Soviética. Foi especificamente concebida para observar o adversário, portanto, pensar que um governo com um utensílio desse género não vai utilizá-lo para a tarefa que lhe atribuiu, é esquecer que o ser humano é uma criatura traiçoeira.

Os sistemas de vigilância da agência foram desenhados com o auxílio de empresas como a Apple, o Facebook e a Google. Após reunir documentos que comprovavam este controlo em massa, Snowden contactou vários jornalistas e revelou a descoberta aos média mundiais (Kobek, 2018).

Segundo um artigo do Expresso, “empresas e governos recorrem cada vez mais a sistemas de pontuação social para tomarem decisões, o que muitos cidadãos desconhecem. O alerta é da Kaspersky, uma empresa russa especializada em segurança digital, que se baseia em dados de uma pesquisa recente”.

Qualquer partilha numa rede social, como a de uma imagem que achemos divertida, terá de ser ponderada, pois no futuro poderá pôr em risco o nosso acesso a créditos e a serviços. Não é uma novidade: a China está a desenvolver um sistema de crédito social, o que se estenderá cada vez mais ao resto do globo para avaliar a confiabilidade dos cidadãos. Uma pesquisa informou que 32% dos jovens entre os 25 e os 34 anos teve dificuldade em obter uma hipoteca ou um empréstimo devido ao que faziam nas redes sociais. No resto do planeta, 18% dos cidadãos não puderam aceder a serviços financeiros, diz um inquérito da Kaspersky a dez mil pessoas oriundas de 21 países. As pessoas que conhecem esta estratégia de seleção concentram-se geralmente na Ásia - 71% na China – mas na Alemanha e na Áustria não ultrapassam os 13%.

A acrescentar a isto, saber do conceito não significa entender o seu funcionamento como 45% dos entrevistados revelaram. Uns substanciais 51% subscrevem que o governo faça essa inspeção enquanto medida de proteção dos cidadãos e 67% partilharia os perfis em troca de, por exemplo, descontos em compras online (Autor desconhecido, 2020).

As civilizações do século XXI vivem sob a observação de um Panótico gigante que vigia tudo e toda a gente sem distinguir a idade, o género, a etnia, a nacionalidade ou a sexualidade. A prisão de Bentham parece ditatorial, desumana, talvez, mas mais assustadora do que uma ditadura que controla os nossos passos para nos censurar e explorar, é uma democracia que também nos explora, mas que nos diz que somos livres para que nos sugue sem notarmos.

A democracia é uma ideologia que gregos com escravos inventaram quando não estavam a espancar as mulheres (Kobek, 2018).

É parecida com a realidade do filme Matrix: a humanidade pensa que vive em liberdade, mas na verdade é o abastecimento energético das máquinas. Muitos cibernautas são o tipo de prisioneiros trabalhadores, obedientes e perfeitos do Panótico, pois pura e simplesmente não sabem ou não têm uma noção total de que estão presos. Além disso, há os que inclusive apoiam os olhos que tudo veem.

A questão é: ser controlado por uma rede social não é tão doloroso como ter uma polícia política atrás de nós para nos agredir, mas não é por parecer mais pacífico que é mais igualitário. Quem está na torre acede a tudo o que dizemos e fazemos, mas nós não sabemos absolutamente nada acerca dos observadores. De que serve a democracia se, ao fim e ao cabo, o cidadão comum não tem uma voz real? A democracia que vivemos é uma ditadura polvilhada com açúcar para a embelezar.

A enorme prisão omnipresente e omnisciente pode dar lucro e dá, porque “o iPhone e o iPad mudaram tudo”. Amplificaram a abrangência do Panótico por serem computadores em forma de telemóvel e de tablet que estabeleceram um fluxo permanente e desenfreado de cliques, comentários, partilhas, uploads e downloads. Facilitou-se bastante a vida aos empresários e aos governos. No modelo mais tradicional têm de estar com pessoas que não lhes agradam para as entrevistar, mas agora basta-lhes aceder ao que publicam nas redes sociais. No modelo mais tradicional, quando querem explorar alguém, criam trabalho precário e são vistos como pessoas vis. Hoje em dia geram anúncios sobre qualquer assunto e produto e roubam dados pela calada. Os lesados não se indignam, porque não sabem e continuam a alimentar publicidade esclavagista com partilhas e comentários obscenos e inflamados, que geram, em catadupa, mais comentários e partilhas obscenos e inflamados. Isto graças às inovações do telemóvel da Apple, porque “o iPhone e o iPad mudaram tudo”. Os trabalhadores chineses e semelhantes não agradecem.

Ilusões da Internet Panótica (4)

Internet: um Panótico Digital (1)

Olavo Rodrigues, 23.07.20

Um filósofo dos séculos XVIII e XIX, Jeremy Bentham, idealizou o Panótico, que consiste numa estrutura circular com celas inseridas nas paredes e uma torre central. Segundo o pensador, seria a prisão ideal, pois a torre consegue ver perfeitamente o interior de todas as celas, mas estas não divisam o que se passa no interior do edifício devido às persianas e às cortinas. Assim sendo, os prisioneiros nunca têm a certeza de estarem ou não a ser observados, mas sabem que há uma boa probabilidade. De acordo com Bentham, só o facto de os reclusos se sentirem constantemente vigiados seria suficiente para os manter na ordem. Não seriam necessários chicotes nem correntes, embora argumentasse que se pudessem guardar só para o caso. O mesmo vale para o tempo de vigília: o filósofo propôs que o ideal era ser ininterrupta, mas mesmo que não fosse possível, talvez não houvesse problema por causa da pressão que se exerceria sobre os presos. O pensador também formulou a hipótese de que o Panótico podia ser gerido em privado e dar lucro.

Michel Foucault, um dos maiores filósofos do século XX, afirmou que esta prisão se desdobra em quatro princípios:

1) Poder pervasivo: a torre acede a rigorosamente tudo o que acontece a toda a gente.

2) Poder obscuro: os prisioneiros, todavia, não sabem de nada do que sucede na torre. Não sabem quando, como ou o porquê de estarem a ser observados. 

3) Violência estrutural: a violência direta é substituída pela estrutural. Bentham disse que não existe coercividade física como tareias, mas não percebeu que o efeito psicológico de estar encurralado em tal lugar é deveras coercivo e destrutivo só por si.

4) Violência estrutural lucrativa: trabalhar para os objetivos do poder é a única opção. É possível obrigar os prisioneiros a produzir o que quer que seja e depois vendê-lo. Se não resta mais nada exceto ingerir pão e água nas celas, quem detém o controlo aproveita a violência da estrutura ao máximo. Consegue abranger qualquer faceta da vida dos reclusos e transformá-los em trabalhadores obedientes e perfeitos. A pergunta é sempre: “como é que isto me beneficiará?” e nunca: “como beneficiará os reclusos?” ou: “será que estas pessoas deviam mesmo estar presas?”.

Bentham concluiu que se podia aplicar o modelo desta prisão a outros edifícios: porque não a um hospital, a uma escola ou a um hospício? Foucault, por sua vez, avançou que era possível arquitetar um país panótico. Quanto mais o poder sabe acerca dos súbditos, mais controlador e pervasivo se torna (Philosophy Tube, 2017). Na atualidade, creio que estamos a habitar um mundo panótico.

Os olhos dos vigilantes de hoje são os algoritmos e os detetores de localização. No entanto, os primeiros têm defeitos prejudiciais além da permanente monitorização dos nossos cliques. São, por exemplo, incapazes de distinguir pornografia infantil de uma fotografia consentida de um adulto nu. Aliás, é de tal maneira ineficiente que “não distingue um corpo humano de dunas de areia” (Philosophy Tube, 2020). Suponhamos que um algoritmo tem a função de escolher fotografias de animais. Um ser humano olha para a foto de um lobo e reconhece-o, tal como reconhece a imagem de um lobo maior ou a de uma alcateia e percebe que vê um animal diferente quando olha para o retrato de um lagarto. Imaginemos que todas estas fotografias têm fundos brancos: um algoritmo pode deduzir que se trata do mesmo conceito só porque têm um traço em comum.

É bastante difícil corrigir isto, porque os algoritmos analisam centenas de milhares de retratos, pixel por pixel, excedendo em muito a capacidade do cérebro humano e é complicado determinar o que é que a máquina está a procurar ao certo. As ditas falhas revelam-se especialmente preocupantes quando os algoritmos selecionam, a título de exemplo, onde é que a polícia vai patrulhar ou quem deve ser liberto da prisão. Não conseguimos entender em que é baseada a análise, senão apenas se a máquina chegou ao resultado correto (Philosophy Tube, 2020).

No que diz respeito à publicidade, acontecem desvios semelhantes. Pondo um exemplo da minha experiência pessoal, interesso-me por qualquer artigo relacionado com ler ou escrever, por isso, é comum aparecerem-me, no Facebook, sugestões de livros e de cadernos e canetas ataviados. Um desses anúncios apelava à compra de cadernos de papel de pedra por serem mais ecológicos segundo a informação disponibilizada. O algoritmo quiçá tenha inferido: “esta pessoa gosta de produtos amigos do ambiente”, portanto, não demorou até brotar publicidade a outros produtos que nada tinham a ver com o universo das letras, tais como escovas de dentes de bambu. O próximo salto já me expunha artigos como outros utensílios domésticos e mobília (não obrigatoriamente ecológicos). Como não se prevê a escolha de pormenores do algoritmo, poderei receber sugestões cada vez mais distantes dos meus interesses como textos e vídeos sobre decorações de casas.

Os seres humanos não pensam de um modo puramente matemático, portanto, será que é boa ideia deixar uma máquina decidir o que é relevante para nós? Para que tenha uma noção de probabilidade, alguém tem de lhe mostrar um número de hipóteses. Quem se encarrega de escolher o que nos importa considerar ou não (Philosophy Tube, 2020)? A diferença entre o papel de pedra e a escova de bambu é inócua, mas uma vez mais, acho pertinente examinarmos os contornos que os desvios assumem em áreas de delicada importância como as finanças.

O que fazer em relação à segurança dos menores de 18 anos? Muitos, senão mesmo a maioria, possuem smartphones com a indicação ativa da localização exata. Mesmo que seja anónima, se se tiver informação sobre a pessoa, é fácil identificá-la. A quem mais pertence aquele telemóvel naquele sítio àquela hora a fazer aquela atividade (Philosophy Tube, 2020)?

Ilusões da Internet Panótica (3)

Comunicação e Liberdade de Expressão (2)

Olavo Rodrigues, 22.07.20

Um sem-fim de cibernautas indignados, a causar um rebuliço, podem achar que estão a dar passos na direção de um mundo mais igualitário por espalharem a palavra, mas e se todos os seus esforços acertarem num alvo ilusório? E se, como numa espécie de Matrix (1999), nos derem a ilusão de que somos ouvidos só para nos motivarem a perpetuar um círculo vicioso? Eu sugiro que as palavras só movimentam uma causa quando apoiam uma ação externa à rede, mas provavelmente não a longo-prazo. No fundo, acho que nem a escrita nem a oratória fizeram o Grande Esquema sofrer assim tantas alterações.

Retomando o que Kobek escreveu e o que já se referiu sobre a publicidade, as opiniões digitais são estimuladas para dar dinheiro a ganhar a quem chefia as plataformas. Se qualquer ato é um íman de anúncios, as múltiplas manifestações de aversão à discriminação e à negligência social só oleiam o sistema desigualitário que estão supostamente a combater. Qualquer ferramenta espelha as intenções dos seus criadores. Além disso, imensos aparelhos eletrónicos são fabricados na China e noutros países com leis laborais desumanas que permitem aos magnatas uma produção avultada desses artigos, que servirão para alimentar o consumismo digital ou seja: mais aparelhos eletrónicos, mais atividade na internet, mais atividade digital, mais publicidade, mais publicidade, mais receita e mais receita significa mais investimento em trabalho desumano: é um ciclo (Kobek, 2018).

Passou-se do feudalismo e da divisão da sociedade em três estados para o domínio da burguesia, a qual se revelou tão esclavagista como a nobreza e o clero. Surgiu o comunismo nalgumas nações com a promessa de erradicar o abuso do capitalismo cego, mas transformaram-se em ditaduras desigualitárias como qualquer tirania de direita. Penso que Estaline foi tão despótico e sádico quanto Hitler. E a nós, cidadãos de 2020 e de anos por vir, deram-nos um chupa-chupa tão venenoso como a garantia da dissolução de classes monárquicas privilegiadas e da instauração do comunismo utópico. Percecionamos a internet como um subterfúgio à governação, que em oposição à ideia idílica da rede, é o sistema que designa quem recebe todos os privilégios e quem é posto de parte e/ou usado para fornecer os privilégios (Kobek, 2018). Bastantes das pessoas que criaram a internet projetaram-na com o intuito de controlar a governação, porque acreditavam que a liberdade de expressão era necessária ao bom funcionamento social. Assim sendo, criaram um mundo em que a governação não pudesse barrar o livre fluxo do discurso (Kobek, 2018).

Essa ambição foi desfeita quando pessoas aliciadas pelo persuasor mais eficiente de todos os tempos - o dinheiro – entraram no jogo. Quem acreditava no potencial do dinheiro percebeu que, uma plataforma onde qualquer um podia dizer o que lhe apetecesse, era uma zona sem regras de discurso, pelo que uma mentira adquiria a mesma força que a verdade (Kobek, 2018). As mentiras tão poderosas como a verdade são ótimas para manipular eleitores.

Nada do que depositamos na rede nos pertence verdadeiramente. Quando entra no território de uma plataforma, o conteúdo está à mercê da vontade alheia. O Facebook é responsável pelo uso indevido de dados de cinquenta milhões de utilizadores e só começou a fazer discursos de melhoria quando a polémica explodiu. Nada, não temos absolutamente nada. Os agricultores do século XIII dedicavam-se a cultivar os campos dos senhores e os operários do século XIX trabalhavam exaustivamente para os donos das fábricas. No entanto, pouco ou nada do que produziam lhes pertencia. Eram a mão de obra, meras ferramentas que manuseavam outras ferramentas.

Nós e os desafortunados da China não somos assim tão diferentes das massas de outrora: os usuários das redes sociais são apenas os motores dos anúncios que mostram os aparelhos eletrónicos e as roupas de marca que querem comprar e que os trabalhadores precários concebem.

 

“Na verdade, tudo o que essas pessoas que exerciam a liberdade de expressão no Twitter estavam a fazer era pura e simplesmente a criar conteúdos sobre os quais não possuíam direitos para uma empresa na qual não tinham qualquer participação”.

(Kobek, 2018)

 

Estando ciente da minha própria hipocrisia, perdemo-nos, apesar disso, em discussões sobre dignidade humana e o uso da liberdade de expressão e muitos enchem a suposta liberdade de agressividade e insultos. Aliás, penso que convém que assim seja, pois o impulso da raiva gera muito mais interações que a harmonia (Kobek, 2018).

Também nós só manuseamos ferramentas, pois o sistema transforma-se periodicamente e inventa novos métodos, agora com outras ilusões misturadas.

Ilusões da Internet Panótica (2)

Comunicação e Liberdade de Expressão (1)

Olavo Rodrigues, 22.07.20

Hoje em dia, a internet elevou a liberdade de expressão, a principal ferramenta da democracia, a outro patamar de alcance. As redes sociais tornaram-se a nova ágora das massas e alojam qualquer assunto. Muitas vezes transformam-se inclusive em verdadeiros campos de guerra. A questão é: qual é o verdadeiro alcance destes centros de debate fervoroso? Qual é o poder das palavras – e de qualquer publicação no geral - ao serviço da liberdade de expressão? Fará alguma diferença?

Na minha opinião, as palavras podem ter poder, mas apenas nas circunstâncias certas, o que envolve, por exemplo, as pessoas que as dizem. Um político ou outra celebridade poderá ter um impacto significativo numa multidão, mas além de ter de saber persuadir, acho que necessita de um determinado estatuto de ídolo ou líder. Parece-me isto uma raiz comportamental da nossa espécie, visto que, sendo seres sociais, há sempre uma ou mais cabeças de grupo. Os hominídeos como os australopitecos, por exemplo, guiavam-se por machos e fêmeas dominantes (Walking with Beasts, 2001).

Todavia, a esmagadora maioria de quem intervém na rede é anónima ou, quando muito, pequenas celebridades, o que significa que as suas opiniões não têm um impacto que se alastre. Concordo com o argumento de que o objetivo não é obrigatoriamente atrair uma grande atenção, pois nas redes sociais o principal objetivo é, como o nome indica, socializar. A expressão do que quer que seja não tem de ser uma vontade de mudar o mundo, podendo tratar-se apenas de uma conversa pública entre amigos. Porém, quando de facto a intenção é despoletar um movimento ideológico, não creio que  a rede seja o veículo adequado. Se tudo o que se diz e faz na internet é um pretexto para gerar anúncios, o que se consegue com palavras anónimas – muitas vezes mal fundamentadas – é apenas alimentar o ganha-pão das plataformas em que se publica. Kobek escreveu:

 

“O mais curioso era que o Facebook, o Twitter, o Tumblr e o Blogspot, uma plataforma detida pela Google, constituíam o habitat dos supostos intelectuais e radicais sociais. Era aí que eles andavam a falar. Era aí, acreditavam, que a conversa estava a mudar. (…) A ilusão das opiniões, dadas por vontade própria, era encorajada por dar dinheiro a ganhar aos banqueiros. Por dar dinheiro a ganhar aos investidores. Por dar dinheiro a ganhar aos produtores, que escravizavam os cidadãos de nações longínquas de modo a fabricar os aparelhos necessários para a manifestação espontânea de opiniões. A única coisa que as opiniões dadas por vontade própria não faziam de todo era mudar o mundo. (…)

As palavras não equivaliam a poder. Oiçam o que um escritor profissional vos diz. Só gatafunhadas na parede de uma casa de banho é que as palavras têm poder. Na internet, o único efeito das palavras das pessoas que nada tinham era infligir sofrimento noutras pessoas que nada tinham. Quando é preciso derrotar a mão, há que fazer com que os dedos se ataquem. Dividir para conquistar”.

 

Ainda em relação aos requisitos para a força das palavras, além de a pessoa que as profere precisar de uma certa relevância mediática, há que considerar também o formato em que se apresenta. Kobek afirma que “os criadores de cultura não possuem impacto em coisíssima nenhuma. Os escritores só servem para enviar mensagens no tempo”. À primeira vista, esta ideia parece irónica e contraditória, pois se um livro é assim tão ineficiente, porque se deu ao trabalho de o escrever? Quem publica o que escreve quer ser lido e, a menos que se produza puro entretenimento, creio que há sempre ideias a transmitir ao leitor. Odeio a Internet, a título de exemplo, está pejado de análises sobre diversos temas acutilantes como o machismo, o racismo, a exploração, o desalojamento, etc. Tenho para mim que o que o autor quer dizer é que, mesmo que de alguma maneira se inspire alguém, os escritores nunca alteram verdadeiramente o Grande Esquema. Podem lançar inúmeras críticas bem arquitetadas a problemas como o patriarcado e o racismo institucionalizados, mas apesar das lutas já assaz duradouras, continua a haver imensa discriminação e negligência para com a integridade humana. A acrescentar a isso, Kobek alerta-nos para o facto de o modelo de exploração das massas mudar de forma de tempos a tempos, encontrando novos métodos de atuar, o que exploraremos mais adiante. As obras perduram, daí as “mensagens no tempo”, mas no fundo não passam de cócegas.

Um veículo de comunicação mais abrangente e, por extensão, mais corrosivo, poderia ser o formato audiovisual pela mais simples das razões: nem toda a gente lê, mas toda a gente consome produções audiovisuais. Toda a gente vê filmes, séries, vídeos, entre outros, portanto, é possível que a palavra falada, com as novas tecnologias, se torne tão duradoura quanto a escrita. Figuras históricas como Martin Luther King conquistaram uma enorme quantidade de pessoas através da oratória. Um exemplo mais atual e dentro do contexto digital é Felipe Neto, um youtuber que se opôs a uma medida de opressão do governador do Rio de Janeiro contra a homossexualidade e a transexualidade. Tratava-se de classificar como pornográficos os livros que contivessem algo tão simples como um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo, o que os tornava impróprios para menores de idade aos olhos do governador, por isso, seriam embalados num saco preto com esse mesmo aviso. Neto contra-atacou, não só com um vídeo que argumentava contra a censura, mas também comprando 14 mil livros com conteúdo LGBTQI+ e distribuindo-os gratuitamente na Bienal do Livro do Rio. Também as obras fornecidas pelo youtuber estavam dentro de sacos pretos e mostravam um aviso: "este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas" (Felipe Neto, 2019).

Tal promoção da tolerância foi um êxito tremendo, pois a fila para obter um exemplar demorou sete horas a desvanecer-se (Vilardaga, 2019). No entanto, será este golpe uma melhoria a longo-prazo em detrimento da discriminação da orientação sexual e da identidade de género? Temos aqui uma figura com uma posição elevada na internet que desafiou deliberadamente uma autoridade de peso e que venceu. No entanto, embora tenha sido um ato nobre, estou em crer que não chega, posto que ações que de facto perfuram o poder não são suficientemente numerosas e umas quantas são abafadas. Martin Luther King combateu a desigualdade racial, mas embora já não esteja legislada, continua a ser um problema de enorme magnitude nos Estados Unidos, pois em termos de qualidade de vida, oportunidades de trabalho e de acesso à instrução e à saúde, os negros costumam ser mais lesados que os brancos. Aliás, quase nada mudou desde 1968: parece até ter piorado em certos aspetos (Long e Van Dam, 2020). Além disso, agrava-se a situação devido à violência policial como ainda se vê em casos tão recentes como o da morte de George Floyd.

Felipe Neto desferiu um golpe à homofobia e à transfobia; porém, isso não diminuiu obrigatoriamente o número de homofóbicos e transfóbicos: quando muito, enfureceu-os como se vê na entrevista dada por Vilardaga. Sempre que desafia as ideologias da extrema-direita, a estrela do YouTube é atacada por notícias falsas que, por exemplo, a ligam à pedofilia através da manipulação informática. Recentemente, associaram a sua fotografia a um tweet que pertencia a um pedófilo (Monteiro, 2020). As pessoas que foram buscar um livro LGBTQI+  já eram tolerantes. Não pretendo com este raciocínio desvalorizar a boa ação de Neto e qualquer promoção de tolerância é bem-vinda, mas parece-me que lidamos com mecanismos deveras complexos.

Ilusões da Internet Panótica (1)

Introdução

Olavo Rodrigues, 22.07.20

 “O iPhone e o iPad mudaram tudo”. Esta é uma frase que se repete na obra de Jarett Kobek, Odeio a Internet. Nesta sátira à sociedade digital dos primórdios do século XXI, o autor manifesta diversas críticas relativas ao poder, à linguagem e à tecnologia. Como será que os mecanismos que governam esses três elementos nos afetam como civilização? Terá havido uma mudança significativa na força da liberdade de expressão? A linguagem é ou não uma mais-valia para alterar o poder? De que maneira é que a tecnologia influencia a comunicação e a distribuição do poder nos dias de hoje? Terá a definição da qualidade da linguagem, da tecnologia e do acesso ao poder mudado quando nos adentrámos na era digital?

A distribuição pública da internet iniciou-se na década de 1990 (Autor desconhecido, 2020) e, com o decorrer do tempo, a expansão da eletrónica foi crescendo até, na década de 2010, se aproximar do que conhecemos hoje. Houve uma intensificação massiva do uso das redes sociais, apareceram os primeiros grandes youtubers e o potencial comercial deste novo mundo desencadeou um consumismo insaciável. A internet passou a ser um centro cultural e mediático que absorveu inclusive a comunicação social, pois os jornalistas estão constantemente a analisar o que incendeia as redes sociais (Araújo Pereira, 2017).

Kobek nunca chega a explicar o porquê de o iPhone e o iPad terem mudado tudo, mas o contexto dos seus outros raciocínios deixa entrever uma ideia que exploraremos mais à frente. O telemóvel da Apple, que surgiu em 2007, revolucionou a forma como os utilizadores interagem com os smartphones na medida em que apresentou duas grandes inovações: 1) a nível do hardware já não eram necessárias teclas físicas, dado que os ecrãs se tinham tornado táteis; 2) a nível do software, os proprietários do aparelho podiam também usá-lo agora como um pequeno computador através da instalação de aplicações de várias índoles. Em 2010, veio o iPad, um tablet que trouxe as inovações do iPhone (Kobek, 2018).  

Assim, tais dispositivos amplificaram imenso a interatividade entre diversas pessoas, que podiam aceder ao universo virtual em qualquer lugar a qualquer hora. Esse aumento exponencial do consumo cibernético disparou as instalações de aplicações e a frequência de uso das redes sociais, assim como das plataformas de vídeos e de blogues. Como se de uma nova dimensão se tratasse, inúmeros cliques oleavam incessantemente a World Wide Web a todos os momentos ao redor do globo, os quais representavam novos tijolos que a construíam.

O levantamento de impérios paralelos à realidade material, à semelhança de tudo o resto, só é possível graças a injeções avultadas de dinheiro que se traduzem em publicidade. O uso gratuito de diversos domínios digitais requer anúncios ou doações dos usuários. Grande parte serve-se da publicidade, que disponibiliza antes, a meio ou depois de um vídeo, num canto dos sites ou no mural das redes sociais. De modo a direcionar as marcas para o público-alvo, desenvolveu-se um algoritmo baseado nos dados e nas ações dos utilizadores para lhes indicar produtos que possam agradar-lhes. Se alguém passar muito tempo a jogar e a ver vídeos de videojogos e aderir amiúde a grupos com esse interesse, o mais certo é que, para onde quer que navegue, o dito indivíduo encontre anúncios sobre novos videojogos ou sugestões de youtubers que deles se ocupem.

A internet é mais uma central capitalista, mas a questão é: até que ponto é que estamos dispostos a vender-nos, uma vez que não é um sítio garantidamente seguro? Em 2018, por exemplo, houve uma polémica em torno do Facebook sobre a recolha indevida de dados de cinquenta milhões de usuários, os quais foram utilizados para exercer uma influência política nas eleições em que Donald Trump triunfou. O Facebook sabia do problema havia dois anos e nada fez (Ferreira, 2018). 

Como gerimos o equilíbrio entre a nossa satisfação enquanto consumidores da rede e um uso perverso da informação que expomos? Mais importante ainda, será que a maioria dos cibernautas tem uma noção completa do que arrisca?

Este ensaio está dividido em duas secções. Na primeira, encontramos o impacto das palavras e da liberdade de expressão. Abordamos a seguir as alterações que Martin Luther King inspirou e analisamos a afronta de Felipe Neto, um influencer que desafiou uma figura de autoridade de peso. Partimos depois para comparações entre as sociedades de séculos anteriores e a atual. A interligação destes elementos serve de reflexão acerca da relação entre autoridades, seguidores e tecnologia e de que maneira é que as novas relações nos influenciam.

Na segunda secção falamos do Panótico, uma prisão omnisciente e relacionamo-lo com a internet. Mergulhamos no funcionamento dos algoritmos, expondo algumas das suas falhas e examinamos depois como a rede está a mexer na estrutura da nossa civilização, condicionando a obtenção de crédito e serviços, a título de exemplo. Em seguida, olhamos para um episódio da série The Orville com o intuito de estudarmos como o mundo digital nos molda a perceção dos demais. 

Na conclusão fazemos uma reflexão acerca dos aspetos positivos do universo cibernético enquanto os relacionamos com os negativos, tentando sugerir uma resposta à já mencionada pergunta: “até que ponto estamos dispostos a vender-nos?”. Devido à falta de espaço, não será exequível aprofundar temas como, por exemplo, o racismo e o machismo, os quais referimos sucintamente.